Wednesday, 5 February 2014

Shame vs. YES I CAN




http://www.youtube.com/watch?v=cddQn1mZRfI
Shame

1. you are bad
2. shame
3. i forgive you
4. you belong to me
5. obey
6. you can be better
7. learn with me
8. i own you
9. you can't live without me


E tudo isto porque há palavras mudas,
erguidas de medos tão profundos 
como os do Vasco ou até mesmo os da Teresa,
medo de dizer,
medo de ser julgado,
medo de desapontar,
medo feito vontade de morrer
...
E há palavras que atacam,
cortam como lâminas ou estilhaços de vidro
e afastam, induzem dor,
desorganizam,
paralisam
...

Pedro Strecht
O vento à volta de tudo, p. 118

































I Can't Dance




























Private Dancer





4 minutes







Waka Waka














They Don't Really Care About Us












































































































































































Like It Or Not





all the rest came
they tried to make me laugh

and then they went away

funny way of being

untill all my tears



We Found Love





Tuesday, 4 February 2014

«that's wonderful my dear - now, eat your carrots before they get cold»




J.M. Coetzee nasceu na África do Sul, Cidade do Cabo, em 1940.

A Vida e o Tempo de Michael K
1983
Tradução de Ricardo Fernandes
D. Quixote


ao tirá-lo do ventre da mãe

o feto tinha crescido assim dentro de si durante todos aqueles meses. A criança não era capaz de mamar

mantinha-a afastada das outras crianças, porque os sorrisos e o cochichar delas a magoavam

habituou-se a ficar calado

a sua mente era atrasada

a expensas do Estado, passou o resto da infância na companhia de outras crianças igualmente defeituosas e infelizes, ali aprendendo a ler, escrever, contar, varrer, esfregar, fazer a cama, lavar pratos, cavar, fazer trabalhos manuais de verga e madeira

como servente de jardineiro

conseguindo, lentamente, ascender ao posto de jardineiro. 
Devido à sua face desfigurada, K não tinha namoradas.

Quando avistou o filho, desatou a chorar, levando as mãos aos olhos, de modo que os outros doentes não reparassem.

enfermeiras, que não tinham tempo para prestar assistência a uma velha, quando, por todos os lados, tantos jovens agonizavam tão espectacularmente.

quando o autocarro chegou, não havia lugares sentados
e cingiu a mãe num braço, a protegê-la

O ordenado era bom, os patrões pessoas correctas, e, porque era difícil arranjar emprego, Anna K não estava descontente.

Sofria de uma hidropisia.

Vivia apavorada com a ideia de que um dia a caridade dos Buhrmanns acabasse.

«perigo-gevaar-ingozi». Não havia luz eléctrica

mas nunca arredava do que lhe parecia ser o seu dever.

viera ao mundo para olhar pela mãe.

o projecto de abandonar a cidade, que poucas esperanças lhe dava, para voltar às pacatas terras de província da sua mocidade.

ela sonhava libertar-se da violência gratuita, dos autocarros repletos, das bichas nas mercearias, dos lojistas arrogantes, dos ladrões e mendigos, das sirenas durante a noite, do toque do sinal de recolher, do frio e da chuva, e voltar ao campo onde, se estivesse a morrer, ao menos havia de morrer sob um céu azul.

Com o dinheiro da mãe embrulhado em dois pacotes que enfiou nas peúgas

Armou num cantinho do quarto um ninho de almofadas e mantas e passava as noites sentado no escuro a escutar a respiração da mãe.

Houve disparos de metralhadora e tiroteio por entre os carros.

Uma mulher, que fugia com dificuldade, foi alvejada mortalmente.

frequentados pelos delinquentes da Bree Street, onde a polícia não se atrevia a entrar.

Por quanto tempo seria capaz de levar a mãe, transportando-a no seu carrinho de mão, a pedir esmola para comer?

Mas a caixa do correio dos Buhrmanns, para onde a polícia deveria remeter a licença, se é que a mandavam, estava encerrada, e, após a noite do saque, os próprios Buhrmanns tinham sido levados

- Os porcos não sabem que há guerra – observou. – Os ananases não sabem que a guerra avança. Os alimentos continuam a crescer. Alguém tem de os comer.

outro projecto: utilizar as rodas da bicicleta na construção de um carro maior para nele levar a mãe a passear.

Era uma espécie de riquexó, embora de construção tosca, capaz de suportar o peso da mãe;

Era uma perda de tempo ficarem à espera das licenças, disse. As licenças nunca mais chegavam; e sem elas não podiam viajar de comboio.

Durante horas discutiu com a mãe, admirado com a habilidade com que procurava convencê-la.

A mulher-polícia deu uma pancada no balcão, a ver se o calava. – Não me faça perder tempo; digo-lhe pela última vez, se a licença lhe for concedida, há-de recebê-la! Não vê toda esta gente à espera? Não percebe? O senhor é parvo? Próximo! – Esbracejando atrás do balcão, olhou para quem se seguia a K: - Sim, o senhor, diga! Mas K não saiu dali.

Sobre os joelhos da mãe colocou um cobertor e, no fundo, um pacote com alimentos, o fogão a petróleo e uma garrafa de óleo metida numa caixa e algumas peças de roupa sem valor.

Contudo, mantinha-se sorridente, para esconder o esforço que fazia.

alguém nos há-de ajudar


(do cap. 1)


- Tocavam música toda a tarde, até à noite, pelas oito horas. Parecia uma mancha de óleo que cobria tudo.
- A música serve para acalmar – expliquei. – Se não, podiam agredir-se uns aos outros e atirar cadeiras pelas janelas. A música serve para travar os impulsos selvagens. – Não sei se ele entendeu, mas sorriu, abrindo o seu lábio defeituoso.
- A música incomodava-me – disse. – Distraía-me dos meus próprios pensamentos.
- Mas que pensamentos é que querias ter?
- Pensava em voar – respondeu. – Sempre quis voar. Costumava abrir os braços e imaginar que voava sobre as vedações e por entre as casas. Voava baixo, sobre a cabeça das pessoas, mas sem ser visto por elas. Quando ligavam o rádio, ficava tão irritado que já não conseguia voar – e mencionou uma ou duas canções que mais o irritavam.

(do cap. 2)




2003





No Freedom